Monthly Archives: July 2010

A pele de Gaia


Estas imagens são do que convencionamos chamar de montanhas, mas são também de sulcos na pele de Gaia. Heim? Pois sim, vamos explorar uma analogia bastante simples. Voltamos, novamente, a idéia da pariedade entre micro e o macro, o que está em cima está em baixo, e assim por diante.

Olhe de perto a face da sua mão, mas bem de perto mesmo. Observe a textura da sua pele, os poros que se abrem mais e são mais espalhados em certos pontos, são mais próximos entre si em outros. Observe os pêlos que nascem todos na mesma direção, e aqueles que teimam em nascer no sentido oposto. Observe o nó dos seus dedos, essas figuras enrugadas, maleáveis. Olhe atentamente por debaixo da pele, onde as veias azuis-esverdeadas distribuem-se, nutrindo o seu corpo. Repare na ponta dos seus dedos, onde nascem as unhas, esse tecido mais duro, de queratina, e veja como ela vai mudando suavemente sua coloração até desprender-se da pele. Procure por pintas, acnes, verrugas, marcas, dobras, cicatrizes… aprecie a unicidade e a variedade que é a sua pele, o maior órgão do corpo humano.

Agora olhe novamente para as imagens acima. Não torna-se clara a percepção de que são essas as imagens de uma pequena parte do organismo tão grande em que habitamos, tão diverso e ao mesmo tempo tão único? Um ser tão imenso que ao olhar desatento passa desapercebido, frio, inerte? Como poderíamos cair na ilusão de que são essas montanhas apenas resultado de um acidente geográfico, um amontoado morto de pedras, gelo e neve? Não percebes como estão elas também vivas, pulsantes, dinâmicas. São o resultado de uma pele que se estica e comprime, que move-se para cima ao longo dos éons, esculpida pela água e pelo vento, pulsante através das estações.

Da próxima vez que defrontar-se com florestas, planícies, rios, lagos, mares, falésias, morros ou quantos outros “acidentes geológicos”, tente observá-los de um ângulo mais próximo, mais íntimo, e perceberás ainda melhor a beleza jamais estática que é o nosso planeta vivente, a entidade GAIA.

Individualidade







A questão da individualidade passa, antes de mais nada, pela aparência externa, qualidade observada de imediato, à primeira vista. Como nos mostramos aos outros, que mensagem desejamos transmitir em nossa simples presença? A vestimenta é a maior ferramenta que temos à disposição para a transmissão desta mensagem. Não é de surpreender que a moda é um dos mercados mais glamorosos, dinâmicos e ricos de nossa sociedade: a escolha de um estilo determinará quem somos, ao menos nos âmbitos mais superficiais da definição.

Nestes 4 dias que passei no Cerro Catedral, principal montanha para a prática do ski e snowboard em Bariloche (arrisco dizer na Argentina), foi interessante observar como as pessoas tentavam imprimir sua personalidade em vestimentas dedicadas a temperaturas sub-zero.

Trata-se de um desafio, onde vestir-se bem ou vestir-se de acordo com sua personalidade requer muito mais atenção e dedicação. Atenção esta, vale notar, que muitos não estão dispostos a dispensar. Brasileiros, em geral, estão neste grupo preguiçoso, no qual o que conta é vestir o que achou de mais barato e isolante, combinação que costuma resultar em jocosos resultados.

O garimpo de peças que agradem tende a ser mais difícil, a combinação entre o que vai na cabeça, no tronco e nas pernas é certamente mais complexa. Cobrir cada pedaço de pele, não deixar sequer os olhos à amostra, como as opressoras burcas islâmicas, pode ser mais que uma opção estética: em dias que a temperatura chega a -15ºC, seria loucura não fazê-lo.

Mas no final das contas, o que me deixou realmente a matutar foi a a realidade crua e nua por trás daquelas camadas de roupa e daqueles óculos espelhados. Quem é aquele que passa por mim vestido de preto, da cabeça aos pés, com olhos de ciclope? E quem é aquela que deixa suas tranças douradas dançar no vento gélido? Quem são estes que se escondem como podem, na brancura que tudo revela?

reflexos meus, seus, nossos



Quando olho para outro humano, como eu, para aquele que divide o espaço comigo, logo ali, ao meu lado, às vezes me perco imaginando  como seria estar na pele daquele indivíduo, como seria viver sua vida, que trajetória seguiu ele para chegar até aquele preciso momento, no que esta pensando, quais são suas preocupações, suas vontades, seus aborrecimentos.

Não me canso de pensar a respeito, cada vez que estou na presença de outro homem ou mulher, criança ou idoso. Nada concluo desta reflexão senão que é aquele ser humano nada mais que um reflexo de mim mesmo, uma possibilidade, um semelhante, uma jornada que começou, percorre e terminará em pontos tão diferentes daqueles que reconheço como sendo a MINHA vida, mas que não pode estar assim tão distante desta, pode? Somos todos reflexos uns dos outros, nos guiamos e nos perdemos nesse reflexo do momento em que abrimos os olhos, ao momento em que os fecharemos.

Os retratos acima foram feitos em Buenos Aires e Bariloche, Argentina, e acredito que nenhum dos retratados percebeu estar sendo fotografado, nem mesmo meu pai, que figura na última imagem, feita enquanto divida comigo o teleférico que nos levou ao topo do Cerro Otto.

Calefação – vivemos tempos de mudança

Quando a água em estado líquido encontra uma superfície sólida em altíssima temperatura, um fenômeno interessante acontece: a calefação. Em uma fração de segundo a água atinge seu ponto de ebulição e passa de um estado denso e pesado, o líquido, a um estado mais sutil, livre, o gasoso. Tal processo é rápido e inevitável uma vez que as condições básicas estão presentes.

“O que está em cima está embaixo” é um pensamento difundido em inúmeras culturas, expressado através de diferentes palavras, diferentes ensinamentos. Tudo aquilo que existe no universo micro nada mais é que o reflexo do que encontra-se no macro. Não é o próprio átomo uma réplica assustadora de um sistema solar?

É possível então transpormos o fenômeno da calefação para uma escala bem maior. Nosso planeta e toda vida que nele habita passa por um momento transformador que, se observado através de escalas cósmicas provavelmente sucede-se tão rápido quanto uma fração de segundo. Mesmo nossa limitada percepção do tempo/espaço já nos fornece claros indícios das mudanças que culminam em um processo violento, global e inevitável. Esse processo não tem outro objetivo senão nos libertar para expressões mais sutis da matéria, para o vidas mais livres, mais autênticas e mais belas.

Em cerca de duas centenas de anos o homem fez revoluções tecnológicas, culturais, políticas, sociais, intelectuais e metafísicas que superam todos os seus duzentos mil anos de história. Todas essas transformações parecem ter atingido um ponto sem retorno, umas para o bem, outras para o mau.

Estamos claramente caminhando para um ponto máximo, a partir do qual tudo será diferente.

Preparemo-nos com serenidade, sabedoria e paz.