Monthly Archives: July 2011

a morte

Não lidamos com a morte de frente porque elas nos aponta dedos. Nos mostra o que não queremos ver em nós mesmos,o apego ao ego.

O dissolvimento do ego é a aceitação da morte, a liberação para a consciência livre, entre-vidas, entre caminhos.

Mas ao depararmo-nos com a inevitabilidade dos entes queridos, daquele que olham por nós desde antes de estarmos nesse planeta, pois todos nós os temos ou os tiveram, achamos difícil encarar de frente a morte. Ao viver neles o fim, o separo, o término, o sono, a viagem, a ausência, no confrontamos com a solidão da alma. Solidão esta ainda cega à união completa, planetária, cósmica, pois em sua pequenês as alturas ainda estão nas nuvens.

Tia Lúcia foi uma alma solitária. Nunca se casou, e nunca teve um grande amor. Imigrou de São Paulo em meados da década de 90 para morar com o irmão e a sogra, meu avô Dudu e vovó Rosa. Com a partida do irmão, lenta, sofrida e sentida por todos, passou a morar apenas com a cunhada. Cuidou de mim em algumas tardes da infância que tive no Lago Norte, bairro cujo retrato de duas décadas atrás também sofreu morte sentida por todos, mas subita, tal como um acidente de carro.

Depois de dois anos internada num asilo, onde recebia ótimos cuidados e uma condição de vida que minha vó não mais poderia oferecer, foi deixando a voz aquietar-se. Quem antes era esbravejante, um pouco amarga com a vida, foi mostrando apenas seu lado mais bom, mais verdadeiro. Recitava orgulhosa uma prece de Santo Antônio com as magras mãos sobre o peito. 

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Estúdio Quatro Sete

Nada além de um par de números dourados, um quatro e um sete, afixados na parede de pedra de uma casa na 708 sul identifica o estúdio que nasce em Brasília, em março deste ano. Trata-se de um coletivo de sete profissionais do circuito cultural brasiliense. Um estúdio de criativos que não querem nem podem ser rotulados, definidos, limitados ao que produzem hoje ou produziram ontem.

Assim também é a divisão da casa. Os cômodos são utilizados de forma fluida, cujos limites não são absolutamente fixos ou estáticos. Enquanto os produtores da revista Samba, Gabriel Góes, Gabriel Mesquita e Lucas Gehre desenham personagens e narram histórias em quadrinhos  em duas longas mesas da sala central, Virgílio Neto, artista plástico, ocupa um quarto com privilegiada visão para a varanda e faz dali seu ateliê. Pedro Ivo Verçosa adentra madrugadas pintando grandes trabalhos na garagem, que virou espaço reservado a trabalhos maiores, a tinta, pincel e tela. Ricardo Ponte improvisa alguns isolantes acústicos nas paredes de um pequeno quarto próximo à charmosa cozinha de azulejos azuis, e lá grava e edita músicas e trilhas sonoras. Rafael Lobo, diretor e roteirista, aproveita a sala de reuniões, com uma mesa circular e paredes ainda virgens (as únicas da casa) para reuniões com equipes de cinema e vídeo ou para escrever um novo roteiro.

Algumas caixas empilhadas e estantes vazias ou abarrotadas indicam o pouco tempo de vida do estúdio. Desenhos, gravuras, postais e pinturas pendurados nas paredes convidam o visitante e porque não, os próprios artistas, a cruzar referências, interpretar e reinterpretar trabalhos, sendo esses antigos, recentes ou ainda em produção. A casa revela-se um grande ateliê, em constante transformação.

Mais ou menos assim é o Estúdio Quatro Sete.

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Ser do Cerrado __ parte I

O cerrado que me cerca, que me acolhe, que me escolhe, determina quem sou.

Sou um ser do cerrado, assim determinou meu karma. Ser dessa natureza rica, dos galhos tortos e verde oliva.

Sou o calango cinzento, em busca do sol, atento e ágil, pulando de pedra em pedra.

Ao fim do dia, caço os mosquitos que se agitam sob a luz poente, ou a borboleta que se camufla na textura de um tronco.